Singularidade: cada ser humano é único e deve ser compreendido e respeitado em sua especificidade.

Carta de Princípios do IBPB

O que é – Saiba mais

A Psicologia Biodinâmica propõe-se a ser uma uma visão de mundo em que corpo e mente são elementos de um mesmo organismo, na qual o ser humano é visto como vivendo em função de dois movimentos: a homeostase, ou seja, a busca do equilíbrio e da auto-regulação; e a evolução pela mudança e pelo movimento.

Tem como princípio o respeito à singularidade de cada ser humano, buscando incentivar sua criatividade, potência e espontaneidade de forma afetiva, tolerante e não-invasiva. Enfatiza o amor, o prazer, o conhecimento, o trabalho e a espiritualidade como fundamentos de uma existência plena.

Encontra aplicação prática na Análise Biodinâmica, que, partindo do cuidado com a relação terapêutica, elemento primordial do processo, propõe-se a perceber cada pessoa como única, propiciando uma intervenção adaptada às suas necessidades e possibilidades e que lhe permita conscientizar o que é inconsciente em um processo gradual e profundo.

Enfatiza a proposta de fazer amizade com a resistência e dissolver couraças sem quebrá-las, constituindo-se numa abordagem sistêmica que busca o domínio das diversas formas de intervenção verbal e o trabalho com sonhos e a imaginação, integrando esse trabalho simbólico a duas formas de abordagem somática:

- A Massagem Biodinâmica, que inclui a concepção do contato físico como forma de comunicação não-verbal, a valorização da intenção no toque, o uso de técnicas específicas de massagem adequadas às diversas necessidades de cada fase do processo analítico, dentre elas a massagem psicoperistáltica, que utiliza um estetoscópio colocado sobre o ventre como guia do processo.

- A Vegetoterapia Biodinâmica, que abrange diversas formas de intervenção corporal com efeito sobre a dimensão do psíquico que podem ser aplicadas sem necessariamente haver contato físico com o paciente, incluindo-se aí a associação livre de movimentos, o trabalho com a respiração e exercícios mobilizadores e integradores.

A Psicologia Biodinâmica filia-se como descendente da visão de mundo da psicanálise ao incorporar como fundamentais:

- a noção da existência de processos mentais inconscientes que são dinamicamente ativos e estão na base dos distúrbios psíquicos e de inúmeros outros fenômenos percebidos na consciência;

- a metapsicologia freudiana como eixo de compreensão dos processos psíquicos;

- o conceito de desenvolvimento psicossexual;

- a importância decisiva da sexualidade na existência humana;

- a psicodinâmica resultante do conflito entre pulsão e defesa como fundamento da compreensão do psiquismo;

- os conceitos de fixação e regressão;

- o estudo dos mecanismos de defesa;

- a clínica baseada nos conceitos de resistência, transferência e contratransferência;

- a formulação de um processo analítico onde são importantes tanto a revelação (conscientizar o que é inconsciente) quanto a criação (no sentido de novas experiências reparadoras que se dão no âmbito da relação analítica);

- uma técnica que valoriza a atenção flutuante e a associação livre.

Filia-se como descendente também do pensamento de Wilhelm Reich ao:

- valorizar o trabalho corporal na análise como decorrência de uma compreensão do ser humano em sua realidade somática;

- aceitar a importância da respiração e do aparelho locomotor na dinâmica emocional;

- fazer uso do conceito de uma bioenergia em seu raciocínio clínico;

- dar importância primordial, na teoria e na prática, à capacidade humana de autorregulação somática e psíquica;

- entender a importância de analisar o caráter e agir sobre a couraça muscular;

- valorizar a vitalidade e o prazer como aspectos fundamentais da existência humana;

- mostrar um pendor para o otimismo e a esperança quanto ao futuro da humanidade e à capacidade de cada ser humano superar os obstáculos internos e externos à felicidade individual e coletiva;

- defender com paixão a vida em seus múltiplos aspectos;

- manifestar simpatia pelo que é espontâneo.

Incorpora ainda elementos do pensamento de D.W.Winnicott no que diz respeito:

- à sua teoria do amadurecimento pessoal, importante recurso que possibilita ao terapeuta ter segurança no diagnóstico e adequar sua abordagem em cada fase do tratamento dos pacientes;

- ao estudo da contribuição que este autor fez relacionando psique e soma, especialmente quanto à influência dos anos iniciais da vida nos problemas físicos e emocionais do adulto;

- ao estudo das suas ideias sobre o desenvolvimento emocional primitivo e por suas inferências ao observar a relação mãe/bebê, a partir das quais cunhou o termo “mãe suficientemente boa”, conceito que amplia a compreensão e a capacidade de manejo nos casos em que ocorre regressão, seja nos trabalhos com massagem, seja nos tratamentos analíticos;

- às formulações que desenvolveu a respeito dos fenômenos transicionais que são o elo de ligação entre o mundo subjetivo e a realidade compartilhada, criando a base do mundo simbólico e permitindo o desenvolvimento da capacidade de fantasiar e brincar que são os fundamentos da vida cultural e artística;

- à oportunidade de conhecer um autor vinculado ao paradigma objetal da psicanálise, nos permitindo ampliar os horizontes conceituais, o que é de grande valia, especialmente no manejo das chamadas patologias da modernidade;

- aos conceitos de saúde e doença, entendidos à luz da teoria do amadurecimento. A doença perde o cunho patológico, sendo entendida como uma interrupção do amadurecimento, em decorrência de falhas repetidas no ambiente;

- aos conceitos de verdadeiro e falso self;

- ao conceito de holding;

- à sua teoria da agressividade.

Tem sua especificidade ao:

- afirmar a singularidade de cada pessoa, dando pouca ênfase a tipologias;

- valorizar os aspectos lúdicos e prazerosos como um recurso válido na facilitação do desenvolvimento humano;

- enfatizar o trabalho a partir do estímulo interno;

- trazer novos conceitos teóricos e clínicos como personalidade primária e personalidade secundária, couraça secundária, a estratégia de fazer amizade com a resistência, couraça visceral e couraça tissular, ciclo vasomotor;

- acima de tudo, ressaltar o papel das vísceras na psicoterapia corporal, propondo o uso de um estetoscópio sobre o abdômen na massagem e dar atenção aos ruídos peristálticos como guia do processo clínico;

- propor o uso da massagem e do toque como instrumento importante no processo analítico.

Há uma analogia que pode ser útil na compreensão das contribuições originais da Psicologia Biodinâmica: Freud desenvolveu sua metapsicologia enfatizando a importância do complexo de Édipo e das questões da genitalidade, e isto foi complementado pelas proposições teóricas e práticas de Melanie Klein quanto à importância da relação entre mãe e bebê e dos aspectos do desenvolvimento psíquico e emocional no primeiro ano de vida.
Do mesmo modo, Wilhelm Reich priorizou em sua concepção os aspectos edípicos e da genitalidade, tendo Gerda Boyesen complementado, na teoria e na prática, esta forma de ver o humano, acrescentando questões relativas ao desenvolvimento emocional primitivo. Esta é uma das contribuições fundamentais de Gerda, especialmente em relação ao campo reichiano.

A Análise Biodinâmica propõe um setting tranqüilo, sem imposições, não-invasivo, baseado na vivacidade relacional, na atenção à relação terapêutica em seus vários aspectos. Numa linguagem winnicottiana, poderíamos dizer que o analista busca mostrar-se atento e responsivo aos gestos espontâneos – sua tarefa é a identificação e facilitação do gesto interrompido para que o paciente se desenvolva a partir do contato com seu self verdadeiro.

Algumas outras influências que são também importantes:

- a fisioterapia de Aadel Bülow-Hansen;

- a Psicologia Humanista de Carl Rogers, quanto à importância da disponibilidade empática e da congruência do psicoterapeuta, da sintonia com a capacidade de cura do paciente e da “aceitação positiva incondicional”;

- a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, no que se refere a trabalhos com a imaginação.

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